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A CAPOEIRA EM SANTOS

        Falar do início da capoeira aqui em Santos é, antes de tudo, tratar de um assunto, no mínimo, muito alternativo se considerarmos que o senso comum da maioria dos capoeiristas - quando se trata de capoeira histórica ou tradicional - só aponta para o eixo Bahia-Rio (ou, quando muito, inclui Recife)
        Contudo, no que diz respeito à referência bibliográfica, posso citar o excelente livro “História de Santos”, de Francisco Martins dos Santos, que relata a participação da nossa cidade nos acontecimentos mais importantes da história do nosso País.
        Em certa altura da narrativa, quando fala a respeito da nossa contribuição na abolição, o autor conta sobre um cidadão santista, chamado Fortes, que era um “excelente capoeira, como dezenas de outros que existiam entre os abolicionistas da linha de frente”. Adolfo Morales de los Rios Filho em seu livro “O Rio de Janeiro Imperial” – excelente referência para estudiosos e historiadores – em um capítulo dedicado à capoeira, afirma que até mesmo o Patriarca da Independência José Bonifácio (o santista mais ilustre da História do Brasil) protegia um terrível chefe de malta chamado Joaquim Inácio Corta-Orelha.
        Outros indícios importantes sobre a presença de capoeiristas em nossa região em um período muito anterior ao da capoeira da forma como a conhecemos atualmente, me são apresentados pelo meu amigo e discípulo, o mestre Pedro Cunha, que concluiu uma minuciosa pesquisa para conclusão do seu curso de mestrado em História na USP e que, em minha opinião, é um divisor de águas na historicidade formal da capoeira. Dentre tantas inestimáveis contribuições que fortalecem a minha concepção acerca do referido assunto, o mestre Pedro me mostrou alguns registros policiais do final século XIX que apontavam prisões de escravos por prática de capoeira, na cadeia pública de Santos.
        Esses fatos me fazem acreditar que a capoeira sempre fez parte da cultura e história de Santos, que teve o privilégio de ser uma das cidades pioneiras na luta pela abolição no Brasil.
        Agora, no que diz respeito à história recente da nossa capoeira, dois mestres se destacam: Roberto Teles de Oliveira (Mestre Sombra) e Lailton dos Santos (Mestre Corisco).
        Mestre Sombra, natural de Santa Rosa de Lima, em Sergipe, teve seu primeiro contato com a capoeira aos sete anos de idade meramente por diversão. Mas ao chegar aqui em Santos, em 1963, aos 21 anos de idade, começou a fazer parte de um grupo de capoeira denominado Bahia do Berimbau, em Itapema (hoje, Distrito de Vicente de Carvalho), no município do Guarujá, litoral paulista, sob o comando do mestre Olívio Bispo dos Santos, um senhor natural da Bahia, com cerca de 60 anos de idade na época. Os encontros desse grupo para realização das rodas, a cada dia, ganhavam mais admiradores, porém, tudo era realizado ainda na base do “fundo de quintal”.
        A primeira tentativa de algo mais organizado foi na Rua São Bento, 25, em Santos. O movimento era grande e até houve uma filmagem feita pelo Clube do Cinema de Santos, baseado na música “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. Em outro momento, tentaram se organizar na Rua Santo Amaro, em Vicente de Carvalho. De 66 a 68, a tentativa foi feita na Avenida Ana Costa, 218, na academia de Halteres 1ª Seção das Docas, com participação do mestre Bira.
        Com o falecimento do mestre Bispo, em 1972, mestre Sombra assume o comando do grupo que já se denominava “Associação de Capoeira Zumbi”. Somente a partir de 1973, em Vicente de Carvalho, que os encontros com a finalidade de ministrar aulas organizadas, vingaram. Em 1974, ao se registrar junto à Federação Paulista, o grupo mudou outra vez de nome, passando a ser conhecido como Associação de Capoeira Senzala de Santos, pois já existiam grupos registrados que também utilizavam o nome “Zumbi”. Depois de tantas idas e vindas, mestre Sombra, enfim, se estabelece definitivamente em Santos. Começou na Praça José Bonifácio e, em seguida, na Marechal Pego Júnior, 20, local onde, segundo mestre Fábio Parada, o grupo começou a ganhar projeção e reconhecimento. Em abril de 1978, transferiu-se para Rua Brás Cubas, 227, onde está instalado até hoje.
        Já Luiz Santos Barbosa, o Mestre Bandeira, afirma que antes da chegada de seu mestre, o Mestre Corisco, em 1969, na região da Baixada Santista, não existia nenhum movimento do gênero aqui. Mestre Corisco, que também é natural do Estado de Sergipe, é discípulo do Mestre José de Andrade que, por sua vez, é discípulo do Mestre Pinatti. Mestre Corisco começou a ensinar aqui o seu cunhado, que é o próprio Mestre Bandeira, já em 70 e a partir daí, foi fundada a ASCAB (Associação Santista de Capoeira Areia Branca).
        Essas duas versões, por se anularem, fomentam um grande número de questionamento, pesquisas e especulações acerca do que verdadeiramente aconteceu. Porém é impossível, hoje, desassociar o nome desses dois grandes mestres da história da capoeira na região da Baixada Santista, porque ambos contribuíram de forma insubstituível para o desenvolvimento e divulgação dessa que, na minha opinião, é a forma mais bela e eficiente de se jogar capoeira.


Está dito.
Mestre Ribas.



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