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Comportamentos

        Imagine a seguinte situação:
        Quatro amigos resolvem apostar na mega-sena. Para aumentarem as chances, um deles propõe uma “vaquinha” de cinco reais de cada um para que, com o valor arrecadado, consigam escolher mais números em um único volante de aposta. Na hora de recolher o dinheiro, um outro afirma que está sem grana no momento e fica de acertar depois. Os demais interam o valor que falta e fazem a aposta.
        Após algum tempo, vem o dia do sorteio e o grupo percebe que acertou as seis dezenas: ganharam vinte milhões de reais! Quando se reúnem para comemorar e ratear o montante, aparece aquele que ficou devendo, com os seus cinco reais e muita vontade de comemorar também e desfrutar da sua parte do prêmio. O que parece mais lícito fazer: receber dele os cinco reais, dar para ele os cinco milhões (e os quatro festejarem juntos) ou deixá-lo de fora da divisão, já que corre o risco dele só ter aparecido para quitar sua “dívida” porque soube do resultado?
        Essa história contada em forma de parábola é baseada em um fato real que teve um final muito trágico, pois o “devedor” foi deixado de fora do rateio do prêmio - provavelmente por quem teve a idéia de fazer a “vaquinha” - e agora é o principal suspeito da morte deste que o deixou de fora.
        Apesar de esse fato suscitar uma infinidade de reações, o julgamento mais comum de quem se arvora a dar uma opinião sobre o caso é um só: mesmo que não tivesse ocorrido a morte, uma das duas partes envolvidas pode ter usado de má fé. E não foi necessariamente aquele que ficou devendo. Sim, porque se a aposta não tivesse sido contemplada e ele aparecesse para quitar sua dívida no mesmo dia em que apareceu, muito provavelmente seria visto como um homem de palavra, mas como acertaram a aposta, ele pôde ser visto como um provável aproveitador. Difícil, não?
        Reconhecendo minha incapacidade de fazer um julgamento justo, a única coisa que me resta é tentar tirar algum aprendizado de situações assim.
        Por exemplo: como não se passar por um sujeito aproveitador ou por alguém que está usando de má fé?
        Conversando com dois graduados e na tentativa de ilustrar melhor o que eu queria dizer, eu pedi para que - guardadas as proporções - eles exemplificassem que tipo de comportamento poderia ser considerado de má fé ou se passar por aproveitador no nosso grupo. Eles tentaram citar alguns exemplos, mas sem muito sucesso a meu ver, pois se apoiaram em situações que eu considero muito escandalosas, discrepantes ou desesperadas. Então eu afirmei que situações desse tipo são as que menos me preocupam. O real problema vem com sutilezas, vem disfarçado de um comportamento inocente e desinteressado. Vem daquela pessoa, por exemplo, que vive se justificando ou se lamentando por não ter tempo de treinar, mas está sempre livre em dia que tem “novidade” (como apresentação, roda na praia ou chegada de algum professor que estava fora do país). Demonstra um grande pesar por não poder cumprir com as formalidades do grupo, mas é a pessoa mais presente e agitadora nas festas que promovemos. Aliás, reclama até que não pode pagar ou vive esquecendo as mensalidades, mas é figurinha carimbada em todas as baladas pagas na cidade. Se for aparecer algum mestre diferente na sede, lá está ela. É a primeira a chegar! O grupo vai participar de uma gravação em um programa de TV e adivinha? Justamente naquele dia tal pessoa estava livre e pôde comparecer! Perto de exame e batizado? Nem se fala. E aqueles que só aparecem para treinar quando, no dia anterior, aconteceu uma cena de capoeira na novela de horário nobre? Esses são demais! Ou então aqueles que, com o passar dos anos consideram a capoeira e o grupo como segundo ou terceiro plano, até que aparece uma oportunidade para dar aula, daí tentam me convencer que estão preparados e merecem tal confiança. Enfim, vem daquela pessoa que tenta se passar por “linha de frente” e atuante no grupo, mas que, na realidade, só quer o que considera “bem-bom”, desconsiderando aqueles que, independentemente dos motivos que o levaram para capoeira e dos objetivos que querem alcançar, fazem parte do grupo com responsabilidade e consideração.
        O fato é que ninguém está isento de passar por maus bocados e, por isso, ficar mais ausente, mas se conformar e se entregar a uma má fase assumindo-a como um comportamento existencial e permanente, onde a maior preocupação passa a ser o de arrumar desculpas variadas para a própria ausência no que pode ser considerado cotidiano e procurar justificativas para as sucessivas e coincidentes presenças somente no que pode ser considerado extraordinário, já é outra coisa.
        Vale a pena salientar que não estou me referindo a alguém especificamente (por mais que possam vir caras e nomes na cabeça de quem se considera judicioso e lê esse texto). Estou apenas falando de comportamentos. Também não estou escrevendo aqui um “Manual para Identificação de Aproveitadores do Grupo”, tão pouco um termo de abertura para uma temporada de “caças às bruxas” (até porque se eu me considero capaz de me redimir dos meus erros, logo todos são). Portanto, se esse texto servir somente para que cada um olhe para o seu próprio rabo, já me sentirei realizado.
        Para encerrar, fica registrado meu apelo para que a gente viva da forma mais autêntica, transparente e responsável possível, pois, embora nada disso justifique tirar a vida de alguém, não conheço ninguém disposto a ser passado para trás (ou a pagar a quantia que for) quando a outra parte envolvida é alguém que adota as características que eu descrevi nos parágrafos anteriores como um estilo de vida.


Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 20 de dezembro de 2008.



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