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De qual geração você é?

        Todos sabem que o nosso grupo já passou por várias fases, inclusive com um nome correspondente a cada momento. Houve um tempo, por exemplo, que, estando com os dias contados para entregar a sala onde aconteciam as minhas aulas, eu saía todos os dias, com alguns alunos mais chegados e compromissados com o meu trabalho, procurando um lugar para alugar. Foi um tempo de grande ansiedade e expectativa.
        Lembro-me de outro tempo que, em dia de chuva, precisávamos escorar com caibros as vigas principais que sustentavam as telhas de amianto – que eram aparentes, pois o teto do local não possuía um forro - para que tentássemos conter as incontáveis e volumosas goteiras que faziam com que tivéssemos a impressão de que chovia mais dentro do que fora da sala. Foi uma época de muita frustração e trabalho.
        Houve um tempo de sucessivas uniões, separações e dissensões, dentro e fora do nosso grupo, que influenciaram vários capoeiristas a ora penderem para um lado, ora penderem para o outro, enquanto outros, pouquíssimos, confiando principalmente nas minhas convicções, suportassem a pressão até o fim, para que as coisas começassem a caminhar para o que conhecemos hoje como Grupo Capoeira Santista. Foi uma época de muita paciência e esperança.
        Foram tempos e tempos que, embora tenham forjado o homem e capoeirista que hoje eu sou, já passaram. Eu sou um homem do meu tempo e o meu tempo é esse que eu vivo agora.
        Afirmo isso para anular qualquer possibilidade de alguém do nosso Grupo querer sustentar alguma autoridade ou ascendência apenas pelo fato de ter participado de alguns momentos equivalentes a esses acima citados, pois, se alguém que passou por tanta coisa só conseguiu amealhar como conhecimento a capacidade de “jogar na cara” das gerações mais novas que, nem de longe, passaram por situações parecidas, coisas do tipo “eu sou de tal tempo e vocês não”, meu Deus, que desprazer que me daria saber de tal fato.
        Quanto mais tempo e participação nessas épocas e acontecimentos o individuo possuí, maior deve ser a capacidade e a preocupação demonstrada em contribuir de forma positiva, amistosa e inclusiva com a informação e formação das novas gerações na capoeira santista. E é nessa característica que se deve sustentar alguma possível autoridade ou ascendência. Do contrário, tal pessoa não só será um péssimo exemplo, mas também uma pedra de tropeço para o desenvolvimento do nosso Grupo.


Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 11 de novembro de 2008



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Idealizador e fundador do Grupo Capoeira Santista