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Importância do nome (parte I).

      Saudações Santistas.

      Depois de um “longo e tenebroso inverno” de muito trabalho e pouco tempo para me dedicar aos textos do site, volto em um período providencial, pois nesse mês o Grupo Capoeira Santista está completando 11 anos de atividades.

      Foi no início de setembro de 1999, com o retorno do meu irmão para os Estados Unidos após a sua única visita que fez ao Brasil, que eu reestruturei o trabalho que já vinha realizando desde 1991 renomeando-o assim. Ora, um nome para mim nunca é apenas a decodificação fonética da disposição das letras que o compõem. Principalmente na capoeira. Tem de haver troca de significado, sentido e propriedade. Ou seja, o nome e aquilo que se nomeia com ele devem se retroalimentar agregando tais valores e é da responsabilidade de todos que representam e se fazem representar pelo Grupo Capoeira Santista as implicações desse processo. Nesse sentido, considerei importante escrever nesse mês de “aniversário” do Grupo uma pequena seqüência de textos que, além de restabelecer pelo menos o mês e o ano que realmente importa no que diz respeito à fundação da minha escola com a configuração atual, ainda reitera, mesmo que de forma muito resumida, a narrativa dos principais fatos e acontecimentos que me inspiraram a realizar tal reestruturação.

      Pois bem, indo direto ao assunto, vou começar afirmando que eu me desenvolvi na capoeira sob a concepção de que eram os iniciantes que sustentavam o trabalho em uma academia, pois eles eram sempre em um número muito maior em comparação aos demais, uma vez que a maior parte desse volume todo de aluno largava de vez a prática assim que adquiria a primeira graduação e esse fator se desdobrava proporcionalmente nas demais graduações, ou seja, quanto maior a graduação, menor o número de representantes (como acontece até hoje).

      Contudo, em pouco tempo eu percebi que a realidade que justificava tal concepção era a mesma que gerava um problema que eu já considerava muito grave, pois dado o tempo decorrido de participação em aula e sustento e o fato da atenção e cobrança estarem sempre mais voltada para demanda de iniciante em cada “temporada”, os poucos que permaneciam se graduando em cada geração passavam a considerar os treinamentos e o compromisso com as mensalidades fatores de importância cada vez mais secundária. Nesse contexto, principalmente na ausência do mestre Parada, para alguns alunos mais graduados, treinar capoeira era aparecer nas aulas na hora que bem entendessem e só entrar quando começasse a roda. O pior é que, nas poucas aulas inteiras que participavam faziam questão de se posicionarem lá no fundo da sala, mostrando não fazerem a menor questão de servir como exemplo prático para quem estava chegando. Foi exatamente por causa desse contexto que eu, quando iniciei minha trajetória dando aula de capoeira, denominei tal trabalho de “Nova Geração”, pois influenciado por vários outros elementos que já constituíam minha formação não só como capoeirista, mas principalmente como homem e cidadão, estabeleci e/ou adotei mecanismos que coibia tais comportamentos em qualquer que fosse o estágio de aprendizagem.

      Posso destacar como alguns exemplos práticos disso:

      - A disposição dos alunos na sala para início de aula que preconizava que quanto mais graduado o aluno fosse, mais deveria se posicionar à frente e a direita na formação.
      - A utilização de uma saudação formal para início e término das aulas (sendo que, mesmo que a aula tivesse começado atrasada, quem chegasse depois da saudação inicial, por exemplo, não tinha o direito de participar daquela aula).
      - Em dias de roda sob minha responsabilidade, quem chegasse depois (ou mesmo durante) a execução da ladainha, não participava da roda senão somente para assisti-la.
      - Quanto mais graduado, maior a responsabilidade em dar exemplo em todos os sentidos (incluindo, principalmente, o de manter o compromisso com os treinos e com o sustento financeiro do trabalho).
      - A consciência de que o que deveria anteceder a vontade de se graduar ou se formar na capoeira era a descoberta de uma vocação própria para formar essa consciência em outros nesse mesmo sentido (mesmo se tal pessoa não pretendesse dar aula), pois, do contrário, seria apenas uma vontade estéril de ocupar uma posição ou possuir um título.
      Pois bem, eu comecei a dar aulas de capoeira de forma completamente independente em São Vicente, em 1991, já com todas essas idéias em pleno vigor, porém consciente de que demoraria um pouco para que esses elementos ganhassem visibilidade prática, já que os alunos que em pouco tempo consegui angariar - cerca de 30 alunos - eram todos iniciantes.

      Só que, se por um lado tais medidas adotadas conferiam contornos organizacionais diferenciados para o trabalho que eu realizava em São Vicente, por outro, quando assumi um horário na própria Movimentos - por indicação do próprio mestre Parada - causou um enorme desconforto para alguns graduados que queriam freqüentar as rodas nas aulas que eu ministrava nesses horários, pois eu só permitia a participação daqueles que se enquadrassem aos critérios estabelecidos por mim. Daí era muito comum eu ouvir dizerem que eu era muito “Caxias” que eu estava inventando moda, querendo aparecer e etc. Para piorar a situação dos que ficavam de fora, eu não dava a mínima para essas reações. Ao contrário: quanto mais falavam, mais se introjetava em mim a convicção de que eu estava no caminho certo.

      Quando deixei de dar aulas na Movimentos por causa de mudanças internas de caráter administrativo adotadas pelo mestre Parada, a turma que fazia aula comigo - já totalmente adaptada ao meu estilo de lecionar - resolveu me acompanhar. Então, a partir daí, a “Capoeira Nova Geração” passou a ser sediada em Santos e mantive as atividades com esse nome até unir o meu trabalho com o do meu irmão, em 1996, que será o tema do próximo texto. Aguardem.

Está dito.
Mestre Ribas
Santos, 11 de setembro de 20100.



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