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Importância do nome - última parte

      Saudações Santistas.

      Na realidade, passar a por em prática o que eu denominei “Capoeira Santista” e que naquele momento habitava apenas o campo das minhas idéias, nada mais era do que resgatar a autenticidade da minha forma de ensinar.

      Afirmo isso porque, na sociedade com meu irmão, nós dois entendíamos, por exemplo, que a filosofia e a pedagogia que prevaleceria no nosso trabalho não nos contemplaria de forma individual. Ou seja, para o bom andamento da sociedade precisávamos saber ceder com freqüência. E isso de certa forma aconteceu, por ambas as partes, enquanto durou a união.

      Por sua vez, minha autenticidade consistia em filtrar, com a minha própria consciência, as possíveis influências do quê - e de quem - quer que fosse na capoeira, considerando, no máximo, os aspectos mais gerais de tais influências, sempre no intuito apenas de contribuir positivamente na formação dos capoeiristas na minha escola. Foi sempre nesse contexto que eu evidenciei e valorizei as características específicas da capoeira que eu testemunhei e aprendi aqui em Santos, na minha primeira fase de aprendizagem: uma capoeira livre, amistosa, festiva, criativa e, acima de tudo, acrobática. Assim foi a minha própria formação.

      No meu tempo, a marcialidade da capoeira consistia também em se diferenciar dos demais estilos de lutas através da capacidade acrobática. É como se um jogador de futebol só quisesse fazer gol se fosse de "bicicleta", "voleio", "olímpico", "de letra" e por aí vai.

      Todavia, os muitos que de uma forma ou de outra já estavam influenciados com tudo que eu descrevi nos textos anteriores, no mínimo se escandalizaram com meu comportamento assim que assumi o nome “Capoeira Santista”, pois não deixei nenhum espaço para “manobra técnica” que não fosse para desenvolver o que representasse as especificidades que citei no final dos parágrafos acima.
      É nesse cenário que se destacaram da forma mais positiva possível dois discípulos meus: Pedro Figueiredo Alves da Cunha e André Luís Ignácio dos Santos. Os dois haviam aceitado realizar um trabalho voluntário em uma instituição que acolhia e cuidava de crianças e adolescentes que sofriam maus tratos por parte dos pais e, para isso, fizeram questão de usar o nome do grupo que eu acabara de idealizar. No início eu resisti à idéia de usarem meu nome, pois além de não ser algo comum esse tipo de coisa aqui em Santos nessa época (pois, normalmente, assim que se formava e iniciava um trabalho com capoeira, todo capoeirista daqui tratava de “batizar’ seu trabalho com um nome diferenciado do grupo de seu mestre), eu reconhecia que as minhas exigências poderiam mais desestimular do que o contrário. Porém os dois me convenceram de que era isso mesmo que eles queriam e que, mais do que confiarem em mim e no que eu ensinava, queriam ser uma extensão fiel do meu trabalho - como são até hoje - e foram a inspiração para que os demais também passassem a utilizar o meu nome.

      Foi uma época muito produtiva. Começou com aulas e treinos semanais e exclusivos para o “corpo docente”, passou, de forma gradual, a se transformar em reuniões com caráter mais administrativo e culminou com a institucionalização de uma fundação, em 2001 e o estabelecimento, já em 2003, do nosso primeiro núcleo internacional, em Israel, graças a coragem e a competência de um outro discípulo meu: Emerson de Jesus Bispo, o Nenê.

      Porém, com o passar do tempo, comecei a perceber que aquilo que deveria servir para otimizar as nossas ações em favor do que poderíamos realizar, na realidade, alimentava comportamentos muito negativos que alguns insistiram em nutrir e que geraram muita discórdia. Tais comportamentos variavam entre insegurança e presunção ou entre omissão e ativismo que só queria buscar glória para si. Assim, foi questão de tempo para eu mesmo, pessoalmente, fazer esse castelo de areia ruir.
      Na volta da minha última viagem, em março desse ano (que, diga-se de passagem, foi uma verdadeira “lua-de-mel” entre mim e a capoeira), percebi um clima muito ruim na sede. Ao averiguar a razão, constatei que era, em minha opinião, por causa dos motivos mais infantis possíveis já que partira do que seria o primeiro escalão da minha escola que era constituído por um grupo com as seguintes características:

      - Idade média: acima dos 30 anos de idade
      - Grau de instrução: quase a totalidade com curso superior completo (sem contar os que iniciaram a vida acadêmica e não puderam terminar, como é o meu caso, por exemlpo)
      - Tempo médio de prática de capoeira comigo e de convivência entre eles: mais de uma década (vou até desconsiderar as graduações).

      Isso foi demais para mim. Esse contexto catalisou um processo que já era previsto, mas só entraria em vigor à medida que se estabelecessem novas gerações de formados (fato sobre o qual ainda não tenho a menor garantia de que vão se estabelecer) já que concedi, por conta própria, para essa primeira geração, prerrogativas e privilégios que não concederia para nenhuma outra.

      Prova disso, por exemplo, foi, há dois anos aproximadamente, conceder - a título de confiança - a graduação de contramestre para uma turma relativamente grande (com exceção do Pedro Cunha, que era quem realmente merecia tal reconhecimento no referido evento e do Hugo Leonardo, que só foi promovido no evento posterior), pois eu já vinha há algum tempo manifestando publicamente minha insatisfação em relação ao comportamento de alguns nesse primeiro escalão. Porém, eu havia recebido a promessa de que as coisas iriam mudar (depois desse reconhecimento, alguns me provaram que realmente mereciam tal confiança e para esses, de fato, foi uma graduação/título que caiu perfeitamente bem).

      Assim, veio a reestruturação de que tanto falei nessa série de textos e, a reboque, veio também a necessidade de uma tomada de posição principalmente por parte dos que se viram envolvidos de forma direta ou indireta aos fatos narrados até aqui.
      Decolamos outra vez. Porém, conquanto estejamos atualmente voando em “céu de Brigadeiro”, nada de piloto automático. Mão no manche durante todo e qualquer vôo. E o meu mais sincero desejo, é que minha tripulação confie em mim e nos rumos que vamos tomar.
      Com isso, encerro essa série de textos que se destinou a tratar, ainda que de forma superficial ou indireta, sobre os valores e atribuições na relação entre um nome e aquilo que se nomeia com ele. E para que essa relação ganhe visibilidade, depende de gente. É exatamente aí que mora o perigo.

Está dito.
Mestre Ribas
Santos, 15 de novembro de 2010.



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Idealizador e fundador do Grupo Capoeira Santista