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Largar o osso

      Saudações Santistas.

      Nota aos meus amigos e alunos:
      Embora eu reconheça que é impossível dissociar situações de pessoas - e vive-versa -, o texto a seguir, nesse sentido, é impessoal, pois eu tenho, a cada dia mais, tentado entender as pessoas. Principalmente as que me são próximas. Também concordo que os tempos são outros e cada um tem que “correr atrás do seu”. Eu só lamento algumas situações e a realidade atual. Portanto, encarem esse texto apenas como um desabafo.

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      Tenho andado meio ranzinza ultimamente. Tá bom...na realidade, eu reconheço que normalmente eu já sou meio ranzinza, mas tenho andado um pouco mais ranzinza do que o normal. Minha mulher diz que pode ser por causa das últimas semanas que passei muito gripado... mal mesmo... e que é algo que não estou acostumado (realmente não me lembrava da última vez que eu havia ficado doente). O fato é que a realidade atual daquilo que a galera ainda chama - não sei baseado em quê - de “Grupo” Capoeira Santista é o que tem me incomodado muito e cada vez mais e isso tem me feito muito mal.

      Nesse ponto é muito importante compreender a completa distinção que eu faço entre a existência desse suposto grupo e a escola de capoeira que eu idealizei, através da qual eu atuo ininterruptamente há mais de duas décadas e que desde 1999 eu a denomino como “CAPOEIRA SANTISTA”, pois essa, graças a Deus, vai muito bem, obrigado!

      Afirmo isso porque, embora eu seja o responsável por uma sala muito bem localizada, exclusiva para a prática da capoeira e, por essa razão, possível de se oferecer aulas diárias e em vários horários, o que realmente representa a minha escola é a minha forma pessoal de ensinar e compartilhar, presencialmente, todo o conteúdo capoeirístico do qual eu tenho me apropriado durante todos esses anos de prática e que, obviamente, é fundamentada pelas minhas próprias convicções e interpretações da capoeira em geral e que, por sua vez, está sempre em pleno e contínuo processo de criação, desenvolvimento e atualização.

      Acontece que, por ser tal processo inevitavelmente tão dinâmico, aqueles que não me acompanham - real e presencialmente – nos meus treinos e nem nas minhas aulas (e eu sei quem são) não têm a menor condição de me representarem de maneira apropriada (e digo em qualquer nível de representatividade, pois essa realidade atinge desde aquele que simplesmente tem orgulho de ser ou ter sido meu aluno até quem queira dar aula usando meu nome) e, atualmente nesse contexto, a tendência é só piorar, pois se já é impossível me acompanhar nesse processo sem frequentar as minhas aulas, sem aquelas reuniões semanais, e nem sequer encontros informais, imaginem agora que nem as nossas rodas acontecem mais. Ou seja, não sobrou nada que justifique quererem “elevar” a minha modesta escola à categoria de “grupo”.

      O pior é que, ao reler meus próprios textos e principalmente me lembrar do quê me motivou a escrevê-los em cada época, é possível delinear essa gradativa, porém denunciada, derrocada.

      É bem verdade que – entre altos e baixos - eu faço o que faço com a mesma dedicação e alegria de sempre, porque, capoeiristicamente falando, poucas coisas me satisfazem mais do que ver os iniciantes e os intermediários com aqueles característicos “brilhos nos olhos” à medida que a aprendizagem de cada um deles avança e novos elementos se revelam para eles nesse processo. E isso Deus nunca permitiu que me faltasse. Sobretudo atualmente. Contudo, acho que estou precisando me aposentar de mim mesmo e das minhas idealizações. Nesse sentido, o mais engraçado e paradoxal (e, portanto a maior lição para mim) é estar convencido de que o antídoto para esse mal que me aflige seria justamente eu adotar a filosofia contra a qual eu sempre me dispus com a veemência que me é peculiar quando tentava estimular reações positivas de alguns formados meus há não muito tempo atrás: limitar-me apenas a dar as minhas “aulinhas” dessa minha “capoeirinha” que eu aprendi, “quietinho” no meu “cantinho”. Só que, nesse caso, melhor seria não representar e nem ser representado por ninguém.

Está dito.
Mestre Ribas
Santos, 16 de junho de 2012..



Site criado por Nilton Ribas Martins Júnior
Idealizador e fundador do Grupo Capoeira Santista