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Mestre Bimba e a Capoeira Carioca

        Tenho acompanhado – anonimamente - alguns trabalhos e discussões virtuais (tanto em páginas específicas de capoeira, quanto em comunidades de sites de relacionamento, na internet) sobre esse assunto, onde as partes interessadas ou envolvidas defendem de forma extremamente passional suas respectivas teses com o objetivo exclusivo e óbvio de rechaçar a opositora.
        É no intuito de deixar registrado para os meus alunos e formados qual é a minha opinião acerca desse tema que eu resolvi publicar o presente texto.
        Como é de conhecimento da grande maioria dos capoeiristas, existe um trabalho assinado por Annibal Burlamaqui e publicado no Rio de Janeiro em 1928, intitulado "Gymnastica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada". Pois bem, pelo que eu pude perceber, os que defendem tal influência se apóiam principalmente no fato de Cisnando Lima, o aluno de mestre Bimba mais influente de sua época, possuir um exemplar da referida obra justamente durante o período de criação e desenvolvimento da Capoeira Regional. É possível, por exemplo, verificar a confirmação desse fato até em textos que envolvem a “velha guarda” da Capoeira Regional e se destinam a defender a total isenção de qualquer influência desse tipo (mas que, em minha opinião, acabam tendo um efeito contrário). Mestre Damião (outro discípulo de mestre Bimba), a certa altura de um texto/resposta, afirma o seguinte:

“Dizer que o método de Burlamaqui não era conhecido por ninguém na Bahia na década de 1930 seria uma desavergonhada mentira, mesmo porque a cidade do Salvador não era uma aldeia... Mestre Decânio, o mais antigo aluno do Mestre Bimba ainda vivo e atuante, e que com ele conviveu desde 1938, participando ativamente da fase do aperfeiçoamento da Luta Regional Baiana, contou-me que Cisnando, seu grande amigo e alma gêmea, médico como ele e que colaborou intensivamente com Bimba na criação da Luta Regional, possuía o método de Annibal Burlamaqui. Entretanto, nada desse método foi utilizado por eles (Cisnando/Bimba) durante a criação da referida luta.” (grifos meus).

        O jornalista e sociólogo Muniz Sodré, em seu livro “Mestre Bimba – Corpo de Mandinga”, também afirma que:

“contato houve, é certo, entre os discípulos de Bimba e o manual de Annibal Burlamaqui”.

        Outro indício que corrobora com tal idéia é pinçado de uma entrevista publicada no Diário da Bahia em 13 de março de 1936, na qual o próprio mestre Bimba, dentre tantas coisas, afirma o seguinte:

“Ao som do berimbau e o pandeiro não podem medir forças dois capoeiras que tentem a posse de uma faixa de campeão, e isto se poderá constatar em centros mais adiantados, onde a capoeira assume aspecto de sensação e cartaz.
A polícia regulamentará estas demonstrações de capoeira de acordo com a obra de Annibal Burlamaqui, (Zuma) editada em 1928 no Rio de Janeiro”.

        Contudo, eu particularmente acredito que tais indícios não deveriam ser considerados como sendo provas cabais - pelo menos até o presente momento - (não significando necessariamente que eu desconsidere qualquer possibilidade de influência). Por outro lado, os que refutam tal idéia se valem de argumentos que, em minha opinião, são, no mínimo, ineficazes. Por exemplo: considerar o último parágrafo do referido trecho do texto/resposta de mestre Damião como um testemunho inquestionável, sugerindo, ainda que de forma velada, que pode se tratar de uma prova contra a suposta influência é ser tendencioso demais. Afirmo isso por inferência simples: mestre Decânio, como afirma o texto, iniciou sua prática na capoeira com mestre Bimba em 1938. O que não é dito é que ele tinha apenas 16 anos de idade. Ou seja, além de ter iniciado seu aprendizado dez anos depois do ano atribuído à criação da Regional – e, diga-se de passagem, uma década é tempo suficiente para muita “água passar por debaixo da ponte” -, eu resisto aceitar que o simples depoimento de alguém que era apenas um adolescente na referida época seja suficientemente adequado para representar a gênese da Capoeira Regional de forma indiscutível.
        Não estou aqui desmerecendo o testemunho de ninguém, mas apenas revelando a minha opinião sobre a inadequabilidade do referido depoimento como prova irrefutável para tal questão. Até porque, nesse caso específico, “o pau que bate no Chico, bate no Francisco também” se considerarmos que o trecho citado tanto serve para defender quanto para acusar. Aliás, cruzar algumas informações registradas em obras consagradas sobre da origem a Capoeira Regional nem sempre é uma tarefa fácil quanto deveria ser, já que só existiu apenas um mestre Bimba. Por exemplo: nas primeiras páginas do livro “A Saga de Mestre Bimba”, mestre Itapoan, registrando as memórias de seu mestre, publicou o seguinte:

“Em 1928, criei, completa, a Regional, que é o batuque misturado com a Angola, com mais golpes, uma verdadeira luta, boa para o físico e para a mente" (grifo meu)

        Porém, mestre Atenilo, o “Relâmpago” da Capoeira Regional, em entrevista ao próprio mestre Itapoan revela que quando iniciou o seu aprendizado com mestre Bimba em 1929 ainda não era Regional:

        “Itapoan:- Agora, quando você começou a treinar com Bimba, ainda não era a Regional não, não é?”
        “Atenilo:- Não, era Angola.”

        Ou seja, mesmo tendo criado por completa a Regional em 1928, mestre Bimba, no ano posterior, ainda ensinava o que passou a ser considerado Capoeira Angola.
        Pois bem, muito embora eu me sinta capaz de desdobrar esse tema em incontáveis exemplos e possibilidades, vou parando por aqui. Até porque eu reconheço que não tenho nada a ver com essa discussão (pelo menos diretamente). Por fim, considerando o contexto exposto, posso afirmar que os interessados não devem simplesmente descartar toda qualquer possibilidade de encontrar alguma influência no trabalho de quem quer que seja. Nem mesmo de mestre Bimba. Por outro lado, aqueles que quiserem se arvorar em defender tal possibilidade precisam fazê-lo considerando, de antemão, estéril esse tipo de debate, pois reproduz de forma equivalente o melhor estilo do “quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?”.


Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 11 de novembro de 2008



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