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MEUS FUNDAMENTOS

        A melhor maneira de apresentar meus fundamentos e tradições é descrever "o que" e o "porque" acontece quando realizo uma roda de capoeira.
        Em condições ideais, acontece desta forma:

        Bateria
        Vou começar pela formação da bateria. Todos os tocadores sentados na seguinte disposição (da esquerda para a direita de quem assiste):
        Agogô e pandeiro; berimbaus médio, gunga, viola; pandeiro, reco-reco e atabaque.
        A roda começa com o aquecimento da bateria. Através do berimbau gunga, o ritmo é iniciado, seguido pelo berimbau médio e viola. Em seguida entram os demais instrumentos, marcando a cadência imposta pelo gunga. Nesse aquecimento, não há cânticos e nem jogo, são apenas alguns minutos de ritmo, onde são apresentados todos os toques que eu utilizo nas rodas que realizo.
        Faço isso por vários motivos. Por exemplo: para os eventuais ajustes e afinação não só dos instrumentos, mas também entre os tocadores; para envolver o ambiente com o clima que vai se desenvolver na roda (pois uma roda nunca é igual a outra!); para que algum visitante ou mesmo a assistência conheça e se familiarize com a nossa levada ( ou seja, com o ritmo e cadência que jogamos); enfim, considero como um momento de muita expectativa.
        Eu comando todo o andamento da roda através do berimbau gunga e uma vez a bateria aquecida e tudo pronto e afinado, demonstro em que toque e em que cadência que o jogo inicial deve se desenrolar. Os tocadores dos berimbaus médio e viola e dos pandeiros participam comigo desse momento enquanto os dois capoeiristas mais graduados apresentam-se de cócoras na frente dos berimbaus e se preparam para iniciar o jogo.
        "Iê!" - esse é o grito que chama a atenção de todos os participantes (e principalmente de quem vai iniciar o jogo), para a execução da ladainha - tipo de cântico que inicia a roda cuja sua mensagem, além do conteúdo histórico, tem sempre um caráter filosófico (por essa razão não se joga durante essa cantiga). Parte integrante da ladainha é a louvação, onde entram os demais instrumentos e o cantador, como o próprio nome sugere, pode fazer menção à sua crença, ao seu mestre, e a tudo aquilo que ele entende ser importante saudar nesse momento, além de nortear os primeiros passos dos dois capoeiristas na roda, com versos como esses, por exemplo: "Iê, menino é bom...", "Iê, sabe jogar...", sugerindo assim um jogo amistoso, ou ainda, "Iê quer me vencer...", "Iê, com a falsidade...", alertando que os dois (ou um deles) devem jogar da maneira mais cautelosa possível. Durante a louvação, os dois capoeiristas que vão iniciar o jogo, valorizam esse momento solene com um gestual característico, concordando assim com o que está sendo louvado e junto com os demais, respondem o coro.
        Em seguida, vem o canto corrido que, além de ser o momento de iniciar o jogo propriamente dito, os demais integrantes da roda participam respondendo o coro e batendo palma.

        O jogo
        Sempre afirmo que os toques e as cantigas nunca ditam necessariamente um tipo de jogo, mas sim, sugerem que tipo de comportamento o capoeirista deve adotar em cada momento da roda. O jogo em si, é um só: os dois capoeiristas se põem à prova, atacando, esquivando (e contra-atacando) constantemente, conforme a oportunidade e necessidade; um jogador em função do outro, onde o fim de um movimento é o inicio do próximo, como as letras de uma escrita cursiva, que se sucedem de maneira fluída e harmoniosa, formando assim, as palavras e as frases desse diálogo, escrevendo enfim a história desse jogo.
        Nas rodas que eu realizo, o jogo não só inicia, mas também termina no pé do berimbau gunga e por esse motivo, enquanto tem uma dupla jogando toda a frente da bateria deve estar livre, pois tudo que está acontecendo nesse momento é para a dupla que está atuando. Somente quando se dá o fim desse jogo é que a próxima dupla pode então, entrar na roda (salvo quando eu autorizo ou sugiro o "jogo de compra").
        Como o berimbau é o instrumento mais importante, os capoeiristas devem jogar sempre atentos para atender ao seu chamado (por exemplo: quando o arame de qualquer dos berimbaus quebrar; quando acontecer a troca de um dos tocadores dos berimbaus; quando os jogadores estiverem em desacordo com as "normas da casa" ou, ainda, por qualquer outro motivo que se considere necessário).
        Esses são alguns elementos que eu utilizo para que as rodas aconteçam da forma mais organizada possível, onde os valores que eu considero fundamentais para a formação de qualquer indivíduo (como educação, respeito, disciplina, domínio próprio e etc.) estejam sempre em evidência.

Está dito.
Mestre Ribas.



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Idealizador e fundador do Grupo Capoeira Santista