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Ponderações

        Escrevi esse texto por alguns motivos e meu desejo é que o caro leitor tenha paciência para lê-lo até o fim com carinho e atenção.
        O primeiro motivo é agradecer e dizer o quanto me senti honrado em receber um convite pessoal - através de um depoimento no orkut - para que eu participasse de uma reunião de uma associação recém criada que tem por objetivo principal unir as associações de capoeira oriundas da Senzala de Santos. Em seguida, quero parabenizar a iniciativa de se tentar instituir algo que enalteça a capoeira desenvolvida na nossa região. Porém, paradoxalmente, também quero manifestar a minha sensação de não ter sido entendido nas colocações que fiz em tal reunião e as fiz tão somente preocupado que algo com um potencial tão bom não nasça morto ou não sobreviva por não encontrar raiz em si mesmo!
        Eu sei que pode ser que exista no inconsciente coletivo dos capoeiristas daqui uma imagem nem sempre positiva a meu respeito (principalmente quando se trata de reuniões e encontros que favoreçam debates de idéias como foi essa última que eu participei), e que justifica as afirmações que há anos venho escutando do tipo: “ah, o Ribas se acha”, “só quer aparecer”, “só pensa em polemizar”, “o Ribas é falso” e por aí vai, fazendo com que algumas pessoas já me escutem com os “dois pés atrás” ou cheios de “pedras” nas mãos. Por essa razão resolvi deixar registrado nesse texto as ponderações que fiz por considerá-las importantes para qualquer movimento que se destine a preservar, divulgar e enaltecer ou mesmo unir a nossa capoeira e, dessa forma, se evite pegar caminhos perigosos para tal feito.
        Antes disso, vale a pena afirmar duas coisas:
        Primeiro que não me considero melhor do que ninguém e tão pouco me preocupo com isso. Não estou concorrendo a nada e nem com quem quer que seja. Apenas realizo o trabalho que escolhi realizar procurando me inspirar no que as pessoas têm de melhor - principalmente nas que vieram antes de mim -, inclusive revelando nomes, para preservar a ancestralidade que herdamos, compartilhando assim, a origem de todo saber que julgo possuir e que está aí, tudo exposto, para quem quiser usufruir.
        Outra coisa é que tais afirmações só cabem ao que tem acontecido na Senzala aqui em Santos, pois pelo que percebi no exterior o “couro ainda come como sempre comeu” no melhor sentido que essa frase pode possuir.
        Portanto, as considerações que farei aqui são por amor a nossa arte, principalmente pela que foi desenvolvida em Santos por uma geração que ainda não é (talvez nunca tenha sido) valorizada como se deve.
        Vamos ao que interessa.
        A discussão começou justamente a partir do momento que foram apresentados os objetivos da associação, pois foi incluída em tais objetivos a importância de mostrar - a quem possa interessar – o que é a Senzala de Santos, visto que a maioria dos possíveis associados não alcançou o começo, a formação dela.
        Acontece que existe uma concepção relativamente recente, sutil e velada, de que a Senzala de Santos sempre foi do jeito que é hoje (uma capoeira angola, não assumida como tal) e que tem sido abraçada pela maioria dos que dela – Senzala de Santos – participa, mas que não representa com fidelidade a realidade histórica (ou pelo menos tenta omitir grande parte dessa realidade). O problema é que a geração que sustentou a Senzala de Santos no inicio de seu apogeu (e que não coaduna necessariamente com o que se pratica atualmente) ainda está viva e atuante! Uns mais e outros menos, é verdade, mas essa geração pode afirmar isso muito melhor do que eu (mas que nem sempre o faz, não significando com isso que não gostariam de fazê-lo).
        Do que eu mesmo presenciei, posso afirmar que tal mudança começou em 1995, quando o mestre Moraes veio para cá, trazido pelo mestre Sombra e que, sendo mal interpretado inclusive por mim na época, semeou mais dúvidas e sentimentos ruins do que esclarecimentos. A partir daí, a capoeira daqui que era tão homogênea (independentemente das diferenças que existiam de grupo para grupo), rachou e começou o processo de formação de um híbrido entre o que já existia aqui com a “nova” idéia “imposta” sob o pretexto de ser geneticamente mais puro ou tradicional ou reconhecível, mas que, em minha modesta opinião, é uma “frankstenização” da nossa história e da nossa maneira de ser e se comportar em uma roda de capoeira.
        Foi a partir dessa época que presenciei aqui em Santos incontáveis capoeiristas se sentirem na obrigação de assumirem algum partido - e assim o fizeram -, escolhendo ou a capoeira angola ou a capoeira contemporânea (que estereotipava a capoeira regional), pois somente essas tinham história e eram genuínas.
        Por essa razão que eu afirmo que o processo é relativamente recente, pois antes disso o máximo que poderia existir em alguém daqui era uma vontade latente de se enquadrar em algo que fosse aparentemente maior ou de maior projeção ou reconhecimento (inclusive, talvez, no próprio mestre Sombra cujas razões só pertenceriam a ele). No mais eram os batizados, as rodas de final de ano e de aniversário do mestre Sombra na “Brás Cubas 227”, os festivais culturais e campeonatos promovidos pela Senzala, os “Fegid’s” (“Festival de Ginástica e Dança” promovido pelo Sesc e que posteriormente passou a chamar de “Festival de Ginástica e Artes Marciais” e depois ainda “Festival Autonomia do Corpo”), e tantos outros eventos que sempre foram tão comuns aqui em Santos e que ainda devem estar registrados em incontáveis fotos e fitas de vídeos, é que testificavam, verdadeiramente, o que era a capoeira dos que são oriundos da Senzala de Santos.
        Portanto, pegar esse caminho de apresentar uma Senzala de hoje como se ela sempre tivesse sido assim - com cara de capoeira angola sem assumir – é algo muito perigoso, pois é amputar a geração mais importante para a história e projeção da capoeira da nossa região do jeito que se é possível conhecer atualmente. Se for para ser assim, é melhor mudar o discurso e apresentar uma Senzala de Santos “como ela sempre deveria ter sido em qualquer época e só não foi porque precisou se apoiar em uma geração de rebeldes que resistia ao verdadeiro conhecimento”. Ou então afirmar que “deveria ter sido assim em qualquer época, mas não foi porque enquanto havia aceitação e fazia sucesso não tinha problema, afinal de contas precisava-se atender a demanda da época!”.
        Eu que sempre me resignei com o fato de ter que dar minha “cara à tapa” defendendo a historia da capoeira em Santos em contraposição a outra versão coexistente e que anula a que eu acredito, me vejo hoje mais resignado ainda por não reconhecer mais a liberdade, a espontaneidade e, principalmente, a alegria da capoeira que eu aprendi e ensino justamente nas raízes de onde minha capoeira vem.
        Eu sei que eu também mudei muito durante esses anos que realizo meu trabalho e admito que eu realmente adotava algumas práticas que pouco tinham a ver com a cultura da capoeira. Porém eu só fiz assim enquanto não possuía informação suficiente na época e à medida que eu fui tendo acesso às informações - através de encontros que meu mestre promovia em sua academia e cursos que ele mesmo estimulava que nós participássemos - eu assimilava tudo e só adotava aquilo que atendesse nossas necessidades e tivesse a ver com a nossa realidade (conforme meu mestre sempre ensinou!). E digo mais (sem medo de me passar por arrogante): eu fui pioneiro aqui na nossa região em adotar práticas ligadas aos fundamentos e tradições no aspecto geral da capoeira sem precisar mudar a essência da nossa prática. Ao contrario, fiz isso com o intuito de preservar e valorizar a nossa forma de jogar capoeira, o “estilo” desenvolvido aqui em Santos (e que na época, apesar de eu ter sido muito criticado, sei que inspirei e encorajei muita gente).
        Agora, perceber que o mestre Sombra – que, segundo ele mesmo, possuía tais informações desde sempre - atualmente não reconhece a contribuição que a geração a que me refiro fez por considerar praticamente um desserviço, se ele próprio era o responsável e mestre de tal geração é para mim, no mínimo, descaso e irresponsabilidade.
        Precisamos acordar! Acabar com alguns pudores que beiram à hipocrisia e que só concorrem contra o desenvolvimento da capoeira da nossa região.
        Precisamos valorizar e reconhecer todos os que construíram e que sempre defenderam e divulgaram a nossa capoeira. Ou então é melhor reconhecer de vez que o que se pratica hoje na Senzala de Santos é Capoeira Angola para que pelo menos o discurso não seja um sofisma, principalmente para os incautos.
        Vou ficando por aqui. Estou sempre à disposição para aquilo que eu posso ser útil. Porém, não me vejo capaz de participar dessas reuniões ou dessa associação enquanto a concepção for essa. Todos sabem onde me encontrar.

Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 23 de março de 2009.



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