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Problemas e soluções

         Nesse último exame (dia 30/11), na parte teórica, me flagrei várias vezes aparentemente sem ter o que perguntar. Eram alguns poucos segundos de silêncio e possível expectativa por parte dos presentes – alunos e professores – que poderiam estar pensando: “será que o Ribas não têm o quê perguntar?”, ou ainda, “o que será que está acontecendo com o Ribas? Antigamente, nessas horas, ele estaria bombardeando a galera de pergunta!”
        Acontece que eu constatei uma realidade muito triste: não me faltam perguntas. Ao contrário, elas são infindáveis e as possibilidades só se multiplicam. Porém, eu tenho perdido o tesão de perguntar! É verdade. Estou cansado de ouvir como respostas frases decoradas, sem a vontade e sem o conhecimento que são próprios de quem têm paixão pela capoeira e, nesse sentido, não há troca de “calor” nessa relação.
        Esse tipo de comportamento de alguns alunos no decorrer do exame talvez seja resultado de um modelo de educação que já nasceu falido, mas que ainda é muito adotado por parte, principalmente, do ensino público do nosso país que é aquele do tipo “um finge que ensina e o outro finge que aprende e está tudo certo” somado, ainda, a um conceito muito distante e equivocado acerca do significado do exame no nosso Grupo. Nesse contexto, o exame que deveria preconizar a correspondência consciente entre o que se sabe com o que se faz ou responde, transforma-se em algo parecido com uma lista de supermercado na qual apenas se lê o que está relacionado e busca-se na prateleira de forma mecânica e automática.
        Sempre depois que eu faço considerações dessa categoria, independentemente do tema, sou procurado por alguns alunos que buscam saber se eles são – ou “até que ponto” eles podem ser – os protagonistas do problema denunciado, analisando a questão da forma mais objetiva possível, pois se alguém não faz parte do problema, então faz parte da solução. Desse modo, o que se espera são respostas do tipo “não se preocupe, não tem nada a ver contigo, continue assim do jeito que você está” ou “ainda bem que você me procurou, porque era de você mesmo que eu estava falando”.
        Acontece que pensar assim é desconsiderar muitas possibilidades. Por exemplo: em uma situação como essa citada no parágrafo anterior, perguntei para o aluno que me procurou para esse tipo de conversa o quanto que ele acreditava que as minhas críticas serviam para mim mesmo ou o quanto que eu me considerava encaixado nelas. Ele titubeou - talvez mais preocupado em “acertar” a resposta do que responder realmente o que ele achava - e arriscou dizendo que serviam muito pouco, pois eu vivo treinando e estudando sobre capoeira. Então, eu mostrei outra possibilidade: é por causa da consciência que eu tenho do quanto estou sujeito a tudo que minhas críticas denunciam é que eu procuro me manter atualizado nos treinamentos e no conhecimento. Sei que existem pessoas com aptidões extraordinárias em todas as áreas e na capoeira não é diferente. Porém esse NÃO é meu caso e por reconhecer de forma sadia minhas deficiências, é que me mantenho vigilante e luto para estar de acordo com as escolhas que fiz. Ou seja, não faço isso simplesmente para deixar de ser o problema a passar a ser a solução.
        Enfim, para o desespero de alguns, é muito provável que eu não desista de fazer perguntas nos exames, porém o mais importante é desenvolver uma consciência capaz de fazer com que a prática corresponda com o próprio discurso.

Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 05 de dezembro de 2008.



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