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Prosopopéia

        No texto anterior ("A capoeira NÃO É minha religião"), propus uma pergunta e afirmei que as respostas dadas a ela normalmente são baseadas em categorias que não favorecem o desenvolvimento de uma relação de igualdade e fraternidade nesse ajuntamento circunstancial de pessoas eu idealizei e denominei de Grupo Capoeira Santista. O intuito foi mostrar que, para mim, é muito mais gratificante ver as pessoas que escolheram aprender capoeira comigo se apropriarem da “consciência capoeirística” que eu quero formar em cada uma delas do que constatar somente uma simples obediência delas a um suposto corpo de doutrina existente no grupo.
        Agora neste texto, quero apresentar a minha resposta para tal pergunta, porém antes disso, vou compartilhar um pouco mais acerca dos meus conceitos e idéias.
        Prosopopéia é uma figura de linguagem utilizada por muitos capoeiristas - mesmo sem eles saberem - quando se referem à capoeira, pois é quando o orador atribui vida ao que é inanimado. Acontece que eu nunca compactuei com esse tipo de idéia, pois, embora isso possa escandalizar muita gente, eu nunca considerei a capoeira como algo que tivesse vida própria. Por essa razão, sempre resisti àquele tipo de afirmação que diz:

"Trate bem a capoeira para que ela te trate bem também"

        Assim como também considero um absurdo quando alguém, sob o pretexto de justificar qualquer vacilo (que pode variar entre iniciar um evento muito mais tarde do que o previsto até a aplicação de um golpe covardemente violento), diz o seguinte:

"Pessoal, me desculpa, mas sabe como é, né? A capoeira é assim mesmo”

        Nesse sentido, o que eu normalmente afirmo é aquilo que deveria ser obvio: somos nós que personificamos a nossa capoeira com o que somos e não o contrário. Significa dizer, por exemplo, que se suas participações em rodas e eventos frequentemente descambam para a violência, é porque muito provavelmente o violento seja você. Se todos os eventos que você realiza começam atrasados, saiba: a pontualidade de tais eventos depende de você. E por aí vai...
        Portanto, para responder a pergunta feita no texto anterior, afirmo que as duas situações apresentadas de forma dicotômicas na questão, na realidade, não devem se opor entre si, mas se completarem e, principalmente, se emularem, pois a primeira hipótese implícita na questão só é possível - dentro daquilo que eu idealizo - quando se tem a consciência de que servir à nossa capoeira ou ao nosso grupo, na realidade, é se dedicar em servir ao próximo que pratica a nossa capoeira e pertence ao nosso grupo - independentemente da graduação deste - e a segunda hipótese é o refluxo dessa dedicação, ou seja, parte do próximo em direção daquele que iniciou esse processo. Até porque, o servir, nesse caso, consiste em ser útil e por essa razão não tem o menor sentido – pelo menos para mim – alguém acreditar que está servindo (ou sendo útil) a algo que não possui vida própria.

Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 30 de maio de 2009.



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Idealizador e fundador do Grupo Capoeira Santista