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Reflexões III

      Saudações Santistas.

      Complexo de inferioridade

      É exatamente o que eu considero que possui o capoeirista cuja a principal causa, esforço ou campanha seja provar que a capoeira é equivalente ou superior às demais artes marciais. Pior é quando tal capoeirista, por acreditar que a marcialidade da própria capoeira está limitada apenas em finalizar o golpe com contato físico, faz predominar em seu desempenho golpes ou comportamentos típicos de outras modalidades de luta.
      Eu nunca vi, por exemplo, um judoca que, por qualquer motivo que seja, tenha resolvido treinar também o boxe, acredite que a partir de então o JUDÔ dele estará mais completo (significando dizer que, quando ele estiver lutando judô, ele vai socar a cara do outro). Ou um lutador de jiu-jitsu que resolveu aprender também o muay-thay, o faça com o intuito de tornar o seu JIU-JITSU mais completo... e por aí vai. Só vejo capoeirista pensar e agir assim em relação à própria capoeira. Pior ainda é querer legitimar e sustentar esse comportamento afirmando que na capoeira vale tudo ou que a capoeira não tem regra. Lamentável.

      Marcialidade

      Já que de certa forma eu mencionei esse tema, quero deixar registrado que, para mim, quando comparada às outras modalidades de luta, a marcialidade da capoeira subverte tudo aquilo que normalmente se entende e dá visibilidade ao que é considerado marcial.
      Para começar, por exemplo, enquanto a disposição mental de um lutador convencional durante o desempenho da sua luta é a mesma em qualquer situação (ou seja: eliminar o oponente no menor tempo possível com golpes característicos da luta que ele representa, seja durante um treino, ou simulação, ou apresentação ou em um combate real), na capoeira – pelo menos na que eu aprendi e ensino – a história é outra e para verificar essa realidade, basta tentar responder objetivamente duas perguntas simples: Durante uma roda, qual é a disposição mental (ou a intenção) do capoeirista e quando ele quer que o jogo que ele está fazendo termine?

Quebra, quebra, quebra gereba,
Se quebrar tudo hoje, amanhã o que quebra?
(cantiga popular de capoeira)

      Essa realidade mostra, pelo menos para mim, o quanto a capoeira é subjetiva e essa tal subjetividade é que possibilita o aspecto lúdico da nossa arte. Nesse sentido, a sabedoria popular foi tão precisa que definiu a prática da capoeira como jogo. Jogar, dentre tantas definições, é brincar, divertir-se, entreter-se e esse aspecto é bem próprio da nossa capoeira.
      É por isso que, em minha opinião, na capoeira, marcialidade é malandragem, mas as implicações dessa minha afirmação já são outros quinhentos, ou seja, fica como um possível tema para um outro texto.

      Música Tradicional

      Aproveitando que utilizei uma cantiga para ilustrar o conteúdo do texto anterior, e por acreditar que todos os aspectos da capoeira são interdependentes, vou expor minha definição mais simples sobre esse tema.
      Ora, quanto ao conteúdo, cantiga tradicional de capoeira para mim é toda aquela que, através de melodias, rimas e ritmos próprios, é capaz de sintetizar e perpetuar ensinamentos para a prática da capoeira e para vida. Principalmente para as futuras gerações. Ou seja, mesmo que uma cantiga fale da própria capoeira, ou da escravidão, ou ainda enalteça algum mestre antigo, não a considero necessariamente tradicional. Tem que ter “moral da história”. Do contrário, tal cantiga é como uma navalha sem fio que não corta nada e nem ninguém.

Está dito.
Mestre Ribas
Santos, 30 de setembro de 2012.



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