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Ser angoleiro

        Ao ler o título desse texto o leitor pode perguntar: o que é que o Ribas - que se diz defensor da capoeira desenvolvida em Santos – pode entender de ser angoleiro?
        Na realidade, o que eu sei a respeito da Capoeira Angola - além do acervo literário e áudio-visual existente do qual qualquer pessoa tem acesso - é o mesmo que qualquer capoeirista genuinamente angoleiro que tenha passado pela minha cidade para jogar capoeira com os capoeiristas daqui possa saber acerca da capoeira de Santos. Se isso é muito ou pouco, não interessa, pois essa questão, em minha opinião, não é quantitativa. É geográfica e circunstancial! É verdade.
        Todos nós sabemos que a principal divisão que aconteceu na capoeira e que deu origem aos dois principais estilos – Capoeira Regional e Capoeira Angola - teve razões e local específicos. As razões até podem variar, pois dependem da tradição oral, mas o local onde tudo isso aconteceu juntamente com seus protagonistas e partidários não, a saber: cidade de São Salvador na Bahia!
        Outra pergunta pode surgir: mas o que isso tem a ver com o saber sobre o que é ser angoleiro?
        Fácil. Se na genealogia dos mestres daquele que diz ser angoleiro não “alcança” a cidade de Salvador e nem algum dos protagonistas e partidários dessa época específica, pode desconfiar. Alguma coisa está errada.
        Já no caso da Capoeira Regional, como tem um criador e uma forma de prática específica (inclusive com método de ensino exclusivo também) a tarefa de identificar a genuinidade fica menos difícil, porém, em minha opinião, só consideraria legítima mesmo se atendesse a referência citada acima.
        Afirmo isso porque, além de considerar um descaso e desrespeito com a história e com os grandes mestres da Capoeira Regional e Angola, em minha opinião, é uma irresponsabilidade muito grande, principalmente de quem diz lecionar um desses estilos, não se preocupar com isso.
        Um lutador ou professor de judô, por exemplo, não pode sair por aí dizendo ser um lutador ou professor de jiu-jitsu sem ter aprendido com algum professor ou mestre de jiu-jitsu de fato. Por mais que as duas artes possam ser parecidas aos olhos de quem não as conhece direito. E, nesse caso, vale a pena salientar que a primeira é oriunda da segunda citada. Então, por analogia, eu pergunto: porque isso pode ser tão claro na cabeça de alguém, mas não é claro na cabeça de alguns capoeiristas em relação à própria capoeira? Porque aquele que se interessou por um estilo de capoeira diferente do ele praticava não abre mão de vez do que fazia e não procura um mestre que melhor represente aquilo que quer aprender e não começa do “zero” e só venha a lecionar se houver reconhecimento por parte do mestre que escolheu?
        Certo dia, em uma conversa com um capoeirista que tentava me convencer acerca da ascendente legitimidade histórica e cultural de seu estilo em relação ao que eu pratico, eu perguntei:

        “Mas, atualmente, quem melhor representa o que você pratica?”

        Como resposta, de bate-pronto, me deu o nome de um grande mestre da atualidade. Então fiz outra pergunta:

        “Porque você não treina com ele?"

        Daí ele desconversou, ficou meio sem graça e me devolveu a primeira pergunta:

        “Ah, mas pra você Ribas, quem é que melhor representa o que você pratica?"

        Eu respondi:

        “O meu mestre, Fábio Parada!”.

        Ele ficou mais sem graça ainda (talvez porque ele não lembrou e nem citou o nome do mestre dele) e foi embora muito contrariado.
        Eu já fui cobrado por muitos capoeiristas que afirmaram que eu precisaria decidir entre Angola e Regional, mas sempre respondi que eu aprendi capoeira aqui em Santos, com o mestre Fábio Parada, que é nascido criado e crescido em Santos que, por sua vez, aprendeu com mestre Sombra, que desenvolveu todo seu trabalho aqui nesta cidade, junto com os capoeiristas que já existiam aqui (muitos deles até mais antigos que o próprio Sombra), com as características e necessidades próprias daqui. Portanto não vejo a menor razão ou justificativa para utilizar outra denominação para nossa prática que não seja Capoeira Santista.
        Daí a razão do nome do meu grupo. Não se trata de um novo estilo e sim de um respeito e gratidão por um legado que herdei dos que são antes de mim aqui na minha cidade.
        Por fim, posso não saber nada sobre o que é Capoeira Angola, mas com certeza eu sei o que não é.

Está dito.
Mestre Ribas.
Santos, 23 de março de 2009.



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Idealizador e fundador do Grupo Capoeira Santista