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Títulos, currículos e afins...

       Saudações Santistas.

       Tenho sido procurado por algumas pessoas para conversar acerca das mudanças que eu tenho adotado na estrutura da Capoeira Santista e, invariavelmente, o assunto se afunila para o que compõem o título escolhido para esse texto. Nesse sentido, eu nem preciso traçar uma média ponderada daquilo que tem motivado as pessoas a me procurarem para perceber o quanto que a compreensão da turma em geral está distante da minha concepção. Afirmo isso porque desde sempre fui muito despreocupado e desapegado desses elementos na capoeira (não significando necessariamente que eu os desprezava ou desconsiderava). Tanto que muitos da minha época estranhavam o fato, por exemplo, de eu não ter a menor preocupação de guardar os meus cordões anteriores à medida que eu ia conquistando outros. Em uma outra fase, enquanto uns se sentiam prejudicados ou desconfortáveis toda vez se estabelecia uma mudança nas terminologias e nos respectivos cordões que as representavam - e isso várias vezes aconteceu -, para mim tanto fazia. Só me adaptava e pronto. Sem problemas. O que eu queria mesmo era treinar e compartilhar.

      O que eu percebo hoje, para a minha mais profunda tristeza, é a possibilidade de ainda existir dentre aqueles que me escolheram como mestre, quem tenha mais do que um simples apego pessoal por esses elementos: mas possua a crença de que tais elementos se constituem na chancela que dá autenticidade ao exercício de autoridade e autopromoção hierárquica.

      Quem ainda não percebeu que quando eu comparo cada conquista de alguém aos degraus de uma escada que se sobe não significa que esse alguém está se diferenciando e se distanciando dos outros, mas apenas do produto bruto que ele mesmo era ao iniciar todo o processo, ainda não entendeu nada do que eu sempre ensinei, pois, em relação aos demais, eu comparo cada etapa da aprendizagem desse alguém aos elementos que vão formando uma ponte que deve se sobrepor aos espaços que separam as pessoas, ligando umas as outras, de forma que, quanto mais se conquista, mais se fortalece, mais se alarga e mais se aumenta o alcance dessa ponte. Em síntese: no meu ajuntamento, as conquistas de cada um devem representar uma escada somente em relação a ele próprio e, em relação aos demais, uma ponte de acesso nas relações interpessoais. Quem fizer ou sequer pensar diferente disto ESTÁ ERRADO e NÃO tem parte comigo na capoeira que eu ensino. Ainda mais se quiser usar meu nome.

      Para mim, graduação, título, currículo e afins não dizem absolutamente nada se o portador não fizer questão de promover o bem entre as pessoas sem fazer qualquer tipo de acepção. Não importa quantos excelentes capoeiristas eu tenha ensinado e formado ou que eu ainda hei de ensinar e formar durante minha trajetória. O que importa para o trabalho que eu realizo é a diferença que cada um deles pode e deve fazer em favor de tudo que é proposto por mim.

      Para encerrar, vou dar uma dica acerca da possível projeção pessoal ou profissional que um título ou um currículo pode dar para alguém: não se deve confundir fama com prestígio. O mundo à nossa volta está repleto de exemplos de todos os tipos. É só ficar de olho aberto.

Está dito.
Mestre Ribas
Santos, 26 de abril de 2010.



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